C a s c a i s 75
O primeiro dia do resto da nossa vida ...

novembro 16, 2004
  O testemunho que se segue é uma visão imediatista, assumidamente subjectiva e orgulhosamente parcial de um dos participantes nesse dia inesquecível
Comentarios:
Parabéns, João Ferreira, pela brilhante narração do concerto dos Genesis em Portugal. Apesar de subjectiva, condensa de forma extraordinária esse grande momento a que eu, infelizmente, não pude assistir, mas que, através deste texto magnífico, permite viver por osmose todas as sensações desse concerto.
Contudo, tenho uma gravação excelente do Lamb lies down dessa tournée (faz parte da colecção Archives, e recomendo vivamente), o que compensa o facto de não ter lá estado.
Sou um fã incondicional dos Genesis com Peter Gabriel (vá lá, que o Trick of the tail é também um excelente álbum!) e só tenho pena que o Phil Collins tenha ficado tanto tempo no grupo a dar cabo de todo o trabalho anterior, reduzindo o grupo a uma banda pop - no mau sentido - com as experiências a solo que foi fazendo ao longo de todos estes anos.
Enfim, fica-nos eternamente a música dos Genesis até 1975, quando os seus álbuns eram bons do princípio ao fim.

António M. Gomes
 
Pois é JP, foi assim mesmo.
Eu também lá estive e fui dos que ficaram na bancada, com bilhete comprado na ABEP dos Restauradores. Lembro-me particularmente, não me recordo de qual foi a canção, de um efeito que o Peter Gabriel fez com a pandeireta, ao fazer passar a luz reflectida, por esta, por cima da plateia e de ter visto uma cadeira voar em direcção a uns incautos que se encpntravam mais à frente. Com certeza alguma cadeira fumadora de "Boi voador"....

Grande concerto, o melhor de todos quantos vi (este foi o meu segundo concerto, o primeiro tinha sido dois anos antes - também no Dramático - o dos Procol Harum) e apenas o primeiro concerto a solo do Peter Gabriel, uma vez mais no Dramático, se aproximou, com a sua entrada triunfal num pavilhão completamente às escuras em que apenas as lanternas empunhadas pelos músicos, furando pela multidão se podiam vislumbrar.

Lembro-me também, muito bem, de o tema de conversa de todo o dia seguinte, no Liceu, aos concertos ter sido apenas e só o desempenho da banda, as emoções vividas e a confusão com os tiros.

Quanto ao Pedro Nunes, uma das razões porque não estava em greve, ao contrário dos outros Liceus, foi porque já se encontrava intervencionado e o Reitor tinha sido substituído por um Major (ou Tenente-Coronel) do Exército, como responsável do Conselho Directivo (assim chamado na altura).

José Domingues (Sagui em 1975) 45 anos
 
JP lembras-te quando "corremos" com o reitor/sargento pela escada abaixo do Pedro Nunes? E as chaimites estacionadas à porta ?
A propósito és/eras um amigo do Zé Manel Torres?
Luis Miguel Felício
 
boa sensacao ao ler todos os depoimentos.concerto memoravel.eu (nos)nao tinha bilhete e...entramos de "rajada"e foi deslumrante.fui das caldas e claro inesquecivel.tinha 19 anos.
 
Nao sabem os ciumes que uma pessoa como eu tem, quando lê as vossas perspectivas de um concerto que eu nao assisti (so tenho 21 anos)mas que ambiciono desde a minha infancia.

Infelizmente sou das poucas pessoas que gosta de genesis, da minha idade, e nunca encontro ninguem com quem trocar este tipo de...alegria/tristeza.

quem me dera ter estado em 75 entre voces e em frente ao Rutherford, que para mim, continua a ser um dos meus 2 guitarristas favoritos (o outro e o Mark Knopfler).

Calorosos cumprimentos,
Antonio Santos
 
Tenho a felicidade de aos 35 anos ter realizado um dos sonhos da minha vida que foi ver ao vivo os Genesis em Paris em 2007. Nunca me perdoei o facto de os ter perdido em Alvalade em 92, mas a vida por vezes dá.nos estas segundas oportunidades. Não estava lá o Peter Gabriel nem o Hackett, mas todos os restantes em grande forma. Levo para a campa aquele dia memorável.
Alguns dos melhores concertos da minha vida, e já foram alguns, foram curiosamente com musica de Genesis, pelos "The Musical Box". Presumo que alguém aqui os viu na Aula Magna, já cá vieram 3 vezes tocar. Simplesmente fabuloso, aconselho vivamente. Infelizmente a tournee que passou pela Europa no final de 2008 não contemplou Portugal nem Espanha.

Bem hajam por gostarem de boa música.
 
eu quase chorei a ler isto!
genesis é uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos, eu dava tudo para ver genesis ao vivo nos anos 70 (já vi VGG mas foi no ano passado), infelizmente tenho 22 anos...
meu deus, a musical box no encore, imagino!!!
 
necessario verificar:)
 
Obrigado pela descrição.

Nesse tempo ainda não era conhecedor dos «Genesis», mas a partir de 77, quando finalmente os descobri, daria tudo para poder ter ido a este espectáculo em Cascais! Nada do que vi em palco até hoje se teria provávelmente comparado com esse Concerto, que em Portugal foi de facto histórico...

Marçal A. Alves, Olivais-N., Lisboa (em 75 também com 15 anos e Aluno do então Liceu D. Dinis, em Chelas...).
 
Apenas um comentário ao dia em que foi corrido escada abaixo o tenente miliciano do exercito eu estava no seu gabinete quando o lider dos mrpp do liceu tentou entrar porta dentro para correr com ele, ajudei a abrir a porta e o pessoal entrou por ali a dentro e o homem foi corrido até à Alvares Cabral onde bateu contra o autocarro
No dia a seguir os chaimites estavam à porta do liceu para prender os energúmenos Que medo tive quando à porta do liceu estava o tal tenente a tentar identificar os alunos, claro que não passei da porta e fui parar dentro de uma chaimite, mas aqueles soldados estavam imbuidos do espirito de liberdade e quando chegamos ao largo do rato a malta consegui fugir e foi correr por ali a fora cada um no seu sentido para não dar hipotese a perseguição colectiva
Foi o dia mais rebelde de toda a minha vida
António Antunes
 
Quanto aos Genesis no dramático, apesar de ter comprado o bilhete 50 escudos na ABEP dos restauradores não precisei dele porque a malta de repente entra por ali a dentro e eu fui levado no meio do turbilhão Tinha 14 anitos que noitada e aqueles fumos doidos à minha volta que me toldaram o cerebro???
 
Em 1975 eu tinha 19 anos e um ano de vida em plena liberdade portanto se por um lado já era maior de idade por outro era um autentico bébé. Os Genesis em Cascais foi o melhor concerto a que eu assisti (sem bilhete, é obvio que não fui o único)e depois dele assisti a muitos e bons concertos todos eles em Cascais no saudoso Drmático, o que se lhe ficou mais perto (concerto propriamente dito e ambiente em torno do mesmo) na minha opinião foi o dos The Tubbes já na década de 80, não houve rajadas de metralhadora mas houve muita pedrada contra a polícia de choque.
 
Vi os 2 concertos! Foi a maior experiência musical da minha vida! Nada mais ultrapassou aqueles concertos... nem Pink Floyd, nem Dire Straits, nem inclusive Jethro Tull ( a minha banda de eleição ). Depois deles... só Marillion com Fish!!!!!


 
E foi assim mesmo, estive lá, não podia faltar a este concerto, era o acontecimento mais importante que a nossa geração estava a viver logo a seguir ao 25 de Abril, era ir ver e ouvir ao vivo os nossos ídolos! Tinha 15 anos e os meus pais deixaram-me ir com uma amiga e o irmão mais velho dela; foi uma noite que nunca esquecerei por tudo o que vi e senti. O momento que me marcou mais foi o início de "Carpet Crawlers", o estádio quase veio abaixo e logo a seguir um silêncio de êxtase. O convívio cá fora no jardim em frente do estádio era quase surreal, os chaimites contrastavam com a "onda" geral da maioria. Nunca senti medo.
 
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O duplo concerto dos Genesis, em Cascais, em 6 e 7 de Março de 1975, marcou uma geração de jovens que vieram de todo o país para assistir ao primeiro grande espectáculo de rock realizado em Portugal. Na altura, a banda atingira o ponto mais alto do seu período criativo, tornara-se um ícone para os fãs do rock progressivo que, naturalmente, se consideravam o máximo em matéria de bom gosto musical.

O testemunho que se segue é uma visão imediatista, assumidamente subjectiva e orgulhosamente parcial de um dos participantes nesse dia inesquecível.

Março de 1975. Portugal está ao rubro, em pleno PREC – processo revolucionário em curso. No dia 3, o jornal “A Capital” trazia a manchete: “CIA planeia golpe em Portugal antes do fim de Março”. Um comício do Partido da Democracia Cristã (PDC), no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, é boicotado por manifestantes de extrema-esquerda. Uma vintena de liceus estão em greve. Não é o caso do Pedro Nunes – com certeza as reivindicações já tinham sido atendidas – onde dia sim, dia sim, havia recontros entre estudantes alinhados com o MRPP, os diferentes grupos m-l que vieram a formar a UDP, a UEC (PCP) e o PPD (o CDS tinha sido proibido no liceu no início do ano lectivo).
Mas no fim da semana que antecedeu o golpe militar de 11 de Março (na terça-feira seguinte) houve umas tréguas inesperadas. Na sexta-feira, dia 7, não houve arraial de pancadaria no Pedro Nunes. “Comunas” e “fachos”, que poucos dias antes atiravam paus e pedras uns aos outros, mostravam uma estranha cumplicidade. Logo a seguir ao almoço, vários grupos saíram do liceu. Iam apanhar o comboio ao Cais do Sodré, a Santos ou a Alcântara, a caminho de Cascais. Nessa noite realizava-se o segundo e último concerto da banda de rock progressivo mais amada daquele tempo – de todos os tempos – os Genesis!
Os mais avisados levavam farnel, incluindo umas Sagres – não era proibido vender álcool a menores de 16. Mas o tesouro mais precioso era o bilhete. O meu, comprei-o com semanas de antecedência na agência ABEP, nos Restauradores, custou-me 88 escudos (incluindo 10 por cento da taxa de agência) e garantiu-me um lugar na Bancada B.
A viagem foi tremenda. Apesar de ainda haver primeira e segunda classe na Linha do Estoril, entrámos na carruagem mais à mão e, mesmo assim, viajámos como sardinha em lata. Na estação de Cascais, a multidão espraiou-se pela vila, subindo a colina até ao Pavilhão do Dramático. A tarde foi passada no jardim vizinho, a comer o farnel e à espera que abrissem os portões. Aqui e além, um cheirinho denunciava os grupos onde se fumava substâncias ilegais. À medida que a hora do concerto se aproximava, chegava cada vez mais gente. Formaram-se bichas, começaram os empurrões. Polícia, nem vê-la – em plena revolução ninguém lhe ligava. Quando a confusão já era grande chegou a tropa, o COPCON (Comando Operacional do Continente). Os soldados, muitos de camuflado, como se usava na altura, tentaram pôr ordem nas hostes mas, apesar dos tiros de G-3 - primeiro isolados, depois de rajada - acabaram por deixar entrar no pavilhão dezenas que não tinham bilhete. Reza a lenda que, nos bastidores, Peter Gabriel ficou assustado – tinha levado a filha bebé.

Uma eternidade depois da hora marcada (nove e meia), a plateia, enfim mais sossegada após os que tinham pago os 120 esc. de bilhete terem “concordado” em partilhar as costas das cadeiras com os borlistas, deixaram de se ouvir os tiros (sempre para o ar - não me lembro que se tenha falado de feridos).
As luzes apagam-se. Ouvem-se os acordes de piano. O palco enche-se de fumo branco. “And the lamb lies down...” Milhares de gargantas que fazem o pavilhão rebentar pelas costuras abafam a voz de Peter Gabriel: “... on Brooooooadway”.

Estavam ali, em carne e osso, os cinco magníficos. À esquerda do palco, Steve (Hackett) sentado com as guitarras acústicas e eléctricas, muito concentrado, o atinado da banda. A seguir, Mike (Rutherford), com o cabelo muito comprido, ora sentado ora de pé, com o baixo e a guitarra de dois braços. Ao centro, na monumental bateria, Phill (Collins), só de bigode - cortou a barba para o concerto: à chegada a Lisboa ainda tinha barba comprida -, t-shirt encarnada com mangas brancas, auscultadores nos ouvidos, indispensável nos ‘backing vocals’ (tinha cantado a solo em “More Fool Me”, o último tema do lado 1 do álbum “Selling England By the Pound”, de 73, um prenúncio do que viria a acontecer com a saída de Gabriel, precisamente depois da digressão de “The Lamb”...). À direita do palco, Tony (Banks), numa “ilha” com as teclas - órgãos, sintetizadores, piano. Last but not least, Peter (Gabriel), de cabelo mais curto, um look que contrastava com a imagem que tínhamos dele - o cabelo comprido com uma pelada no meio, como aparecia nas fotos dos discos anteriores. Blusão de cabedal preto, t-shirt branca, olhos pintados de preto: I’M RAEL!

Depois... bem foram para aí umas duas horas noutra dimensão, que deixaram flashes inesquecíveis ao fim de 30 anos:
O carro no palco em “Fly on a Windshield” (“There’s something solid forming in the air...”).
Peter de tronco nu a correr pelo palco em “Cuckoo Cocoon”.
A dança hipnótica de Gabriel dentro de uma espécie de biombo giratório em “In the Cage” (“Keep on turning...”).
O delírio geral quando chegou a altura de “Counting Out Time”: era a cantiga mais conhecida porque tinha sido editada em single (para os menores de 30: na era do vinyl, um single era um disco de 45 rotações, com uma música de cada lado; os álbuns eram maiores, rodavam a 33 r.p.m.... e eram mais caros); além disso, tinha a letra mais ousada, sobre o uso de um manual para os preliminares, e um verso maroto: “Erogenous zones, I love you!” Peter, endiabrado, acompanhava o canto com a pandeireta.
Em “The Colony of Slippermen”, Gabriel aparecia caracterizado como um mutante, cheio de bolhas, representadas por balões. Um dos balões, precisamente no baixo ventre, não queria encher, depois encheu de mais e por fim rebentou, para gáudio dos mais atentos.
No grande final, em “It”, um jogo de espelhos faz magia: Gabriel/Rael aparece em dois lados do palco ao mesmo tempo.
Para acabar em beleza, esperávamos dois encores (no concerto da véspera tinha sido “Watcher of the Skies”, do álbum “Foxtrot”) mas, provavelmente por causa da confusão que antecedeu o espectáculo, só tivemos direito a um. Mas que encore: logo um dos temas de culto (afinal, não são todos?) da banda: “The Musical Box”, do álbum “Nursery Crime”, com Peter maquilhado como se fosse o velho Matusalém a fazer vibrar a multidão com o verso de despedida: “Touch me now, now, now...”

Eu tinha 14 anos mas, ao contrário de Paul Nizan, já tinha a certeza de que aqueles tinham sido dos melhores momentos do resto da minha vida.

João Ferreira (JP em 1975), 44 anos.
 


 

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Dias 6 e 7 de Março de 2005 passam trinta anos sobre o duplo concerto dos Genesis, em Cascais. 20 000 pessoas, em dois dias, assistiram a um acontecimento histórico que marcou uma geração de jovens que vieram de todo o país para assistir ao primeiro grande espectáculo de rock realizado em Portugal.

Para celebrar este momento único da música e da cultura vamos reunir-nos de novo.

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Até Março de 2005

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